Manual de sobrevivência da mestranda.

Após a graduação a maioria das pessoas normais vai entrar no mercado de trabalho, começar a fazer concurso público ou então casar com algum herdeiro de família rica. Já as anormais, insanas ou simplesmente viciadas no ambiente acadêmico, vão tentar entrar numa pós graduação para conhecerem o maravilhoso universo da pesquisa.

Embora não seja o ideal, vejo muitos apelando para o mestrado para estenderem um pouco mais a vida de estudantes. Já outros querem só o título, não importando se a pesquisa vai desvendar a cura para a AIDS ou se será sobre as variações na coloração das maritacas do cerrado goiano. Ou simplesmente podem ser como eu, que acham que possuem um tema muito bom que merece ser explorado pela academia (mesmo que estejamos errados na maioria das vezes). Para todos os casos é melhor seguir os conselhos de quem já passou por isso, e é exatamente essa chance que darei a vocês hoje. Grande parte do que escreverei aqui está baseado no que não se deve fazer. Experiência própria!

a) Antes de tudo: Creio que toda instituição minimamente séria cobre prova de idioma, prova escrita, projeto e entrevista, então não adianta não se preparar. Não interessa se um professor da banca é seu amigo ou se aquele cursinho de inglês que você fez quando tinha 15 anos era muito bom. Tem que sentar a bunda na cadeira e comer os livros, a menos que você seja a reencarnação do Albert Einstein ou algo assim. Já vi muita gente que foi fazer a prova escrita se gabando porque na faculdade apresentou um seminário muito bom sobre Roger Chartier e se ferrou bonito. Da mesma forma que vi muita gente achando que saberia ler e traduzir um texto técnico por ser capaz de assistir Procurando Nemo sem legenda.

O projeto também é MUITO importante. Não faça como eu que redigi o meu em duas semanas. Prepare-o com carinho como se estivesse indo para a qualificação e peça ajuda de alguém mais experiente para revisá-lo. Salve um manual das normas da ABNT em seu computador, em seu e-mail, em todos os seus pen drives, em seu tablet ou smartphone. Se preciso for, cole esse manual até na geladeira para não esquecer. O projeto poderá ser a sua salvação caso você tire notas medianas nas outras etapas. No meu caso, eu só passei na seleção porque fiquei em primeiro lugar na prova escrita, e hoje reconheço que o projeto que apresentei era muito fraquinho para os padrões acadêmicos.

Para quem nunca estudou outro idioma eu aconselho um curso instrumental. Eu fiz um curso de inglês de um semestre e foi graças a ele que fui aprovada. Olha, para quem não sabia nem o verbo to be até que eu saí melhor que a encomenda. Para quem acha que inglês instrumental é enrolação e não serve para nada, só digo uma coisa: na minha seleção teve gente que estudava em curso regular há anos e foi reprovada. Então beijinho no ombro!

b) Não sei como são as provas de outras áreas, mas nas ciências humanas geralmente você se depara com uma bibliografia indicativa IMENSA que vai fazer você sentir vontade de roubar a ritalina do filho da empregada (juro que quase fiz isso uma vez). Aí colega, a única coisa a fazer é ler o máximo que puder. Muitas vezes os editais repetem a bibliografia da seleção anterior, então nem espere sair um novo para já ir estudando as obras indicadas. Se acontecer de o edital sair com uma bibliografia completamente diferente um mês antes da prova, azar. Pense que nenhum conhecimento vem em vão e roube a ritalina do pentelho!

Cada pessoa tem uma técnica de estudos diferente. Comigo é a seguinte: vou fazendo anotações de tudo o que estou lendo e pensando em possíveis questões que podem cair na prova. Na história as questões são subjetivas e você pode escrever o quanto quiser (pelo menos comigo foi assim). Então não tenha medo de viajar, porque muitos professores fazem exatamente isso ao elaborarem a prova. Essa estratégia de pensar em questões que podem cair deu super certo comigo porque, vejam só, uma delas realmente caiu – rysos!

c) Não basta estudar para a seleção, você precisará de um orientador. Entre no lattes de todos os professores, veja qual deles trabalha com uma linha de pesquisa parecida com a sua e seja cara de pau. Entre em contato falando sobre o seu projeto e pergunte se ele estaria interessado em orientá-lo. Já vi gente que se matriculou como aluno especial só para fazer uma média  investir nisso, mas eu não iria tão longe assim. Acho que um encontro no departamento com uma conversa franca resolve tudo.

obs: Já ouvi falar de professores que não queriam o projeto do aluno e tentaram convencê-lo a fazer outro. Não quero cortar nenhum barato, mas pense que você vai passar dois anos de sua vida se dedicando a algo trabalhoso, muitas vezes chato, então para ser uma tarefa minimamente aturável prazerosa, é bom que seja um tema que você ame e se identifique. Se não tiver como negociar com o professor, e se o projeto que ele propôs deixou seu útero completamente seco e infértil, é melhor partir para outra. Paciência! Quem não tem tempo a perder é você e não ele.

d) Estudou inglês? Comeu todos os livros? Deu pro Michel de Certeau? Passou na seleção? Então descanse tudo o que tiver para descansar antes de iniciar o semestre letivo, porque muito provavelmente essas serão as últimas férias que você terá em dois anos ou mais. Mestrando não tem final de semana, feriado ou férias, e gostaria de ter descoberto isso antes. É feriado e todo mundo está indo acampar na Chapada? É carnaval e seus amigos vão alugar um ap em Salvador? É natal e sua família vai comer peru? FODA-SE. Enquanto todos se divertem, descansam ou trepam você vai estar no seu quarto trabalhando na companhia de Foucault, isso se não estiver ouvindo Creep e pensando em suicídio.

e) O semestre letivo começou e o conselho mais importante para esse primeiro passo é: não caia na lorota da doutoranda maluca que disse que pegar mais de duas matérias ficaria muito pesado, pois se ela tem quatro anos para cumprir tudo, você tem apenas a metade do tempo. Se matricule em todas as disciplinas que você puder, porque olha, quando você estiver no último semestre com créditos faltando irá se arrepender.

O ideal mesmo é matar todos os créditos no primeiro ano e ficar com o segundo livre só para poder se dedicar integralmente à dissertação. Se eu tivesse feito assim, provavelmente já teria defendido e já seria mestra.

f) Se você é bolsista provavelmente terá que fazer estágio na graduação. O conselho do ítem D também cabe aqui. Faça o seu estágio o mais rápido possível. Geralmente você vai  acompanhar as aulas do seu orientador e lecionar algumas vezes. Combine tudo direitinho com ele e pense que será apenas por um semestre. Já vi muitas pessoas reclamarem dessa fase, alegando que os alunos não respeitam os mestrandos, mas comigo foi super tranquilo. A experiência só seria mais prazerosa se eu não tivesse que acordar cedo para dar aula logo no primeiro horário do dia.

g) Escreva, escreva, escreva. A gente sempre acha que terá tempo para fazer isso depois SÓ QUE NÃO EM CAPS LOCK! Se for possível escrever todo dia desde o início do curso, faça-o. Pense assim: o que eu prefiro? Começar a escrever agora e cumprir todos os prazos ou parar no psiquiatra com síndrome do pânico?

Vai por mim.

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