Entre o “homexplicanismo” e a interlocução: o bom senso, please!

No texto anterior eu fiz alguns comentários sobre a historicidade da opressão e como certos grupos como negros, mulheres e LGBTs vêm sendo vítimas de determinadas instituições há séculos, tendo como foco o caso das mulheres e a Igreja católica. Como a minha metodologia é a análise de fontes escritas, eu opto por trabalhar com a categoria “discurso” segundo as propostas de Michel Foucault e Roger Chartier que 1) compreendem o debate como um campo de concorrências e 2) nesse campo de concorrências o interesse não está limitado, apenas, em sair vencedor de uma discussão, mas também está em jogo a conquista da autoridade de fala (sendo Foucault quem mais trabalha com esse ponto de vista). Por isso que em várias pesquisas das ciências humanas, sobretudo na história, damos especial importância às questões “Quem fala? Porque fala? De onde fala?”. Essas perguntas não tem apenas o interesse de sanar dúvidas sobre as biografias dos autores de nossas fontes, mas também de inseri-los nesse campo de concorrências, levando em consideração a sua formação intelectual, a sua nacionalidade, o seu gênero, a sua raça, a sua condição social/econômica, etc. Quem trabalha com história política certamente está bastante familiarizado com esse cenário, mas ele também pode ser notado em diversas pesquisas da história cultural, já que a cultura, tanto a popular quanto a erudita, também é produtora de discursos e representações, se inserindo em diversos “campos de batalha discursivos”.

Se no passado esses embates existiam, o mesmo ocorre no presente, sendo a luta social o espaço perfeito para a concorrência. Aliás, ela existe justamente para concorrer com poderes hegemônicos, ás vezes como identidade de resistência e/ou de projeto.¹ No caso dos movimentos feministas esse embate pela “autoridade de fala” já foi percebido, e também foram identificadas diversas formas de silenciamento das vozes femininas, como o que volta e meia acontece com vítimas de estupro, que de vítimas são transformadas em algozes. A própria acusação de “misandria” é constantemente utilizada para deslegitimar feministas, colocando-as como odiadoras de homens, e em contrapartida o termo “homexplicanismo” é utilizado para deslegitimar as vozes masculinas que fazem afirmações que podem desagradar algumas ativistas.

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O “homexplicanismo” é uma expressão que surgiu identificando o local de fala do interlocutor, e sendo ele homem, aponta para o privilégio que este teria na pirâmide social de uma sociedade machista. O blog Feminismo Sem Demagogia dá duas definições para o “homexplicanismo”:

“A primeira, clássica, é quando o homem quer ensinar à mulher quando ela tem o direito de se sentir oprimida e quando não tem. Geralmente, acontece quando uma mulher aponta o machismo do homem e ele adota uma postura auto-defensiva, embora aparentemente cortês, é violento à suas própria maneira, querendo explicar por que aquilo que ele fez não foi machismo.

[…]

A segunda forma de mansplaining é querer ensinar a uma mulher algo que ela já sabe e demonstra claramente saber porque uma mulher necessariamente não teria capacidade intelectual para compreender um determinado assunto. Se ela acha que entende, está se superestimando. Por exemplo, querer ensinar a uma mulher que já sabe sobre mecânica, sobre futebol, sobre economia, sobre qualquer coisa que, supõe-se, mulheres não têm capacidade de entender.”

A partir disso faço duas perguntas: O “homexplicanismo” existe? Ele realmente acontece? Sim, sendo eu mesma testemunha de vários episódios. Mas nem todas as situações em que um homem tenta explicar algo a uma mulher pode ser considerada “homexplicanismo”. Da mesma forma que uma mulher também pode silenciar o discurso masculino acusando-o de “patriarcalista” ou “colonizador” sem que ele tenha se portado como tal.

Em algumas páginas feministas bastante populares eu percebo que o termo “homexplicanismo” é utilizado à exaustão, e já presenciei situações muito chatas em que um homem, por ignorância, disse algum equívoco e foi inundado de acusações. Mesmo sem se portar como um “homexplicador”, e inclusive admitindo o seu erro e dizendo que gostaria de aprender mais, ele foi tratado de forma bastante ofensiva e no final teve todos os seus comentários apagados.

Por mais que saibamos que situações como essa não são regra na sociedade, sendo muito mais comum acontecer justamente o contrário, esse tipo de comportamento (que infelizmente se tornou padrão em algumas páginas feministas) pode causar danos à luta social, prejudicando a interlocução com outros segmentos. Também estou cada vez mais convencida de que os nossos lugares como oprimidos e opressores não são fixos, sendo possível ter esses papeis trocados e nos vermos hostilizando alguém sem necessidade.²

Não existe consenso sobre aceitar ou não a participação de homens no feminismo, sendo algumas ativistas favoráveis, outras completamente desfavoráveis e outras a favor, mas com certos limites. Como eu compreendo o feminismo como uma identidade de projeto que visa a formulação de uma sociedade mais igualitária, e como o gênero masculino é “só” a outra metade da humanidade, contar com a colaboração dele é essencial para sairmos do gueto e colocarmos esse projeto em prática: sem abaixar a cabeça para episódios de “homexplicanismo”, e sem tratar todos os homens como “homexplicadores”. Na dúvida, sigamos o bom senso.

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Parace trollagem do destino, mas no minuto exato em que publiquei esse post, a página Anarco Miguxos publicou essa foto, retirada diretamente de uma página machista. Nesse caso não tenho dúvidas: homexplicanismo MESMO! Errou feio, errou rude.

anarcomiguxosmachistas

 

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Sugestões de leitura: 

CASTELLS, Manuel. O Poder da Identidade: A era da informação: economia, sociedade e cultura, v.2. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre práticas e representações, Algés: Difel, 2002.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso, São Paulo: Edições Loyola, 2007.

 

¹ Manuel Castells vai trabalhar com três tipos de identidades. 1) a identidade legitimadora, que se manifesta nos atores e instituições que detém o poder; 2) a identidade de resistência que se manifesta em grupos historicamente oprimidos como reação à opressão; 3) a identidade de projeto, que propõe formas e soluções para a vida social. Por vezes identidades de resistência se transformam em identidades de projeto.

² Isso de forma alguma modifica ou minimiza a historicidade da opressão sobre certos grupos, como tratei no post anterior.